4 de janeiro de 2013

Sexta Envenenada: A Sabedoria do Condado


“Eu mesmo sou um Hobbit (em tudo, exceto no tamanho).
Adoro jardins, árvores e fazendas sem máquinas.
Gosto de fumar cachimbo e de comer comida caseira...
 vou dormir tarde e me levanto tarde (quando possível)."
J.R.R. Tolkien
“Há algo no caráter dos Hobbits (e não nos personagens chamados Hobbits)
 que faz com que eles vivam dentro de nós de uma forma profunda e duradoura.
Tolkien criou a Terra-média em sua mente, mas os Hobbits provieram de seu coração.
Nossas vidas seriam melhores se 
alguns dos hábitos desse povo animado, honesto, 
decidido e trabalhador pudessem se tornar 
nossos próprios hábitos.”
Noble Smith
Feliz Ano Novo, Envenenados!
Ele chegou: 2013 finalmente chegou e, diferentemente do ano que passou, começou com uma sensação muito boa. Pois é, apesar de 2012 ter sido um ano muito bom para mim, confesso que não estava tão animada e otimista na virada. Mas este não, caramba! Estou muito animada e com uma sensação muito boa – sinto que iniciamos uma nova era, não apenas para realizações pessoais, mas também em termos de sociedade.
Infelizmente, como todos esperávamos, a chuva de janeiro trouxe as histórias tristes que vemos se repetir ano a ano. Espero, sinceramente, que pare por aqui. Que chova, pois é necessário, é natural, mas que não haja mais tragédias em consequência disso.
Apesar de tudo, acredito que este será um ano muito bom para o nosso país, isso pode ser confiança, fé, ou apenas ressaca pelo desfecho de 2012. Sejamos francos, não foi tão ruim assim.
Enfim, começo esse ano, com esta primeira sexta-feira de 2013 muito otimista.
A primeira Sexta Envenenada está um pouco diferente, pois não falo sobre apenas um ou dois personagens, mas sobre um estilo de vida. E para ilustrar o que estou sentindo, resolvi escolher um dos últimos lançamentos literários de 2012: A Sabedoria do Condado – Tudo sobre o estilo de vida dos Hobbits para uma vida longa e feliz – de Noble Smith, editado pela Novo Conceito.
Então, meus queridos, o absinto dessa Sexta Envenenada, ainda com os sons dos fogos da praia de Copacabana, ecoando, anunciando o Ano Novo, são os Hobbits e sua sabedoria.
Não por acaso escolhi esses seres adoráveis. Seu criador J.R.R. Tolkien teria completado ontem, dia 03, 121 anos de idade, claro se tivesse a longevidade Hobbit.
Para quem, incrivelmente, não conhece J.R.R. Tolkien, basta lembrar uma de suas obras mais famosas: a trilogia O Senhor dos Anéis. Sei que existem pessoas que não tenham lido os livros e mesmo assistido aos filmes, mas certamente devem ter, pelo menos, ouvido falar, seja nos meios de comunicação ou algum amigo fã da obra desse autor que não escreveu muitos livros, mas com os que escreveu influenciou e ainda influencia uma legião de fãs.
Quando tomei em minhas mãos o exemplar de A Sabedoria do Condado não fazia ideia do que esperar. Para falar a verdade, mesmo sendo apaixonada por Tolkien, ia deixá-lo para depois, já que minha lista de livros cresce assustadoramente. Espero que janeiro seja suficiente para dar conta de pelo menos metade deles.
Mas ao sentar diante do teclado para compor a coluna de hoje, que não seria sobre esse tema, a magia da folha de Lórien agiu sobre mim e influenciou minha decisão.
Senti uma estranha necessidade de conferir sobre o que o livro tratava, e me encantei com o que vi.
Folha de Lórien
Noble Smith conseguiu transcrever o que eu, e agora sei que outros fãs também, sinto a respeito da obra de Tolkien.
Ele faz uma análise sobre o estilo de vida e de viver dos Hobbits, sempre fazendo um paralelo com os dias atuais.
Eu poderia dizer que é um livro para fãs, para aqueles leitores que são conhecedores da mitologia criada por Tolkien. Mas não é este o caso, pois ainda que o livro cite, capítulo a capítulo, passagens das obras do autor, A Sabedoria do Condado não está limitada aos seguidores de Tolkien.
Claro que aquele que conhece a obra estará mais familiarizado com as colocações de Smith, mas a riqueza de seu texto e o uso de momentos fundamentais das histórias de Tolkien dão ao leitor, mesmo “não tolkienado”, um ambiente aconchegante para desfrutar e compreender essa leitura tão distinta.
Peter S. Beagle diz no prefácio: “[...] Em uma época com tantos livros de autoajuda e guias “espirituais” que nos ensinam como viver uma vida feliz, é difícil acreditar que ninguém tenha pensado em pegar os Hobbits, de J.R.R.Tolkien – os Pequeninos – como exemplos tanto físicos como filosóficos de uma vida tão boa. [...]”
Eu não diria que A Sabedoria do Condado seja uma coisa ou outra. Vejo-o como uma forma de “linkar” a literatura com a realidade, até porque Tolkien criou um mundo e os seres que nele habitam, mas não sem uma boa parcela de realismo.
A cada capítulo, Smith levanta questões muito simples de nossa vida e nos leva a questionar como seriam se fossem vividas por essas criaturas tão únicas e nitidamente as preferidas por seu criador.
Após as devidas introduções e apresentações, Smith abre os capítulos sempre com um questionamento, como o Capítulo 1 – Quão aconchegante é a sua toca-Hobbit?
“Durante toda a minha vida eu ouvi, com frequência, as pessoas descreverem uma casa aconchegante ou um cômodo particularmente confortável como sendo ‘igualzinho a uma toca-hobbit’. Este é um dos maiores elogios que um fã de Tolkien pode fazer a um lugar, pois nele passariam momentos lazer, leriam um livro, bateriam um papo, apreciariam uma refeição deliciosa ou apenas estariam lá dentro para ficar sentados e pensar.
Logo na primeira página de O Hobbit, J. R. R. Tolkien apresentou a Bilbo Bolseiro o mundo (e a Terra-média, aliás) com uma descrição longa e afetuosa da toca-hobbit. Seus Pequenos gostam, sem dúvida, de bastante conforto. Mas eles não moram em mansões ostentosas ou castelos de pedra. Suas casas aconchegantes, construídas nas encostas para haver um isolamento ideal, são divertidos refúgios de madeira com lareiras, despensas bem abastecidas, camas com colchão de penas e lindos jardins do lado de fora das suas janelas.
As adaptações cinematográficas de Peter Jackson mostram Bolsão em toda a sua glória, com revestimentos de carvalho e lareiras flamejantes. Quem não gostaria de habitar aquelas tocas, com vigas cortadas à mão, porta da frente majestosamente redonda e cozinha iluminada por feixes de luz solar? Se você está lendo este livro, muito provavelmente deve estar sorrindo neste exato momento e pensando “Eu moraria ali mais rápido do que você consegue dizer ‘Barco de Drogo Bolseiro’!.
[...]
Tudo, tanto dentro quanto fora da toca-hobbit, teria sido feito à mão. E teria sido criado para durar a vida inteira, da maçaneta de latão no centro da enorme porta redonda às canecas de argila da cozinha e às cadeiras em frente à lareira. Quando foi que todos nos tornamos tão incapazes que não sabemos fazer ou consertar até as coisas mais simples? Por que não esperamos o mesmo tipo de permanência e qualidade em nossa vida?
[...]
J.R.R. Tolkien
Há setenta anos, Tolkien lamentava que o mundo parecia estar sendo controlado pelas máquinas. Árvores eram derrubadas para abrir passagem para oficinas feias, gasômetros e fábricas. (Imagine como ele se sentiria ao ver como estão as coisas atualmente.) Ele escreveu a maior parte de O Senhor dos Anéis durante a Segunda Guerra Mundial, na sua casa em Oxford, enquanto estrondosos aviões de guerra voavam, sobre seu teto, para a Europa. Ele resmungava, ameaçadoramente, que Moloch (deus que só podia ser apaziguado através do sacrifício de uma criança recém-nascida) deveria ter assumido o cargo de governante do mundo.
[...]
Tolkien escrevia frequentemente ao seu filho Christopher (o principal público de suas histórias), que estava servindo na Real Força Aérea na época, e enviava capítulos de O Senhor dos Anéis assim que conseguia providenciar cópias datilografadas. Em suas cartas, descrevia para o filho as pequenas alegrias da vida em Oxford e também lhe contava sobre os problemas e atribulações de ser proprietário de uma casa. Ler sobre coisas mundanas quando se está longe de casa é tão interessante quanto ler textos sublimes.
Tolkien tinha visto pessoalmente os horrores do combate ao servir nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Como os Hobbits em O Senhor dos Anéis, ele tinha retornado da desolação do campo de batalha para um mundo mudado — um mundo em que ninguém mais caminhava sobre a Terra, à exceção de um de seus amigos. Dez anos após a Grande Guerra, ele estava olhando fixamente para uma folha de papel em branco quando as linhas iniciais de O Hobbit surgiram em sua cabeça.
E assim nasceu o primeiro Hobbit — o herói relutante que parte de sua amada residência e retorna de uma grande aventura como um homem mudado. Todos nós seríamos sortudos na vida se tivéssemos a chance de viver uma aventura inesperada e, depois, voltássemos com segurança para um lugar em que houvesse conforto. Geralmente, só damos valor à nossa casa e à felicidade simples que ela nos oferece se ficamos longe dela por um tempo.
Depois da Batalha dos Campos de Pelennor, Merry está se recuperando do corajoso ataque ao pavoroso Rei-bruxo de Angmar nas Casas de Cura de Gondor e ele diz a Pippin que somente uma coisa lhe deu força durante as desventuras de sua terrível jornada: as profundas raízes espirituais que ele criara em seu amado Condado.
Esta é a toca-hobbit da mente de Merry.
Tente pensar em um lugar da sua vida que era como uma toca-hobbit. Pode ter sido a sala de estar dos seus avós, ou o estúdio do professor de música, ou o apartamento de um grande amigo. Por que aquele lugar fazia você se sentir em casa? Ele permitia que você sonhasse? Era o espaço em si ou as pessoas que estavam nele que faziam a diferença? Ou a combinação de ambos? A certa altura da vida, o seu subconsciente criou “raízes” nesse lugar e, mesmo que o lugar não exista mais, você pode buscar forças nessa lembrança.
Você pode criar essa “toca-hobbit” aconchegante onde quer que você esteja: no seu escritório, em um quarto de hotel, em um alojamento de faculdade, em um apartamento na cidade ou em um quarto. Porque o espaço que você habita é irrelevante se comparado ao poder da sua mente de projetar contentamento. [...]”
A Sabedoria do Condado nos diz...
“Seu verdadeiro lar está dentro do seu coração e continua com você onde quer que você vá; mas um lugar legal e aconchegante é um motivo maravilhoso para voltarmos para casa!”
E é assim que vamos entrando e nos sentido cada vez mais em “casa” com a leitura de A Sabedoria com Condado, sempre encontrando um paralelo com nossa própria vida, sendo ou não um tolkienado, como já disse.
Os Hobbits e sua maneira de viver são o foco desta obra e são apresentados como pessoas simples, espertas, trabalhadoras, ingênuas e, embora facilmente assustadas, são extremamente leais e corajosas.
Fiquei muito feliz ao perceber que não sou a única a ter os Hobbits como personagens preferidos em O Senhor dos Anéis. Mas por quê? Alguns questionarão, certamente.
Nesta trilogia conhecemos diversos personagens maravilhosos como Frodo – Hobbit portador do Anel, que tem como missão levar o Um Anel para o local onde deverá ser destruído – herói da saga, aquele capaz de controlar todos os demais – para evitar a vitória do mal e a volta de Sauron.
Conhecemos também Bilbo Bolseiroque durante suas aventuras em O Hobbit, (que está nas telas dos cinemas) apoderou-se do Um Anel, que estava em poder de Gollum, e cujos poderes especiais, como o de conferir a invisibilidade, salvou sua vida diversas vezes; Peregrin Tûk (Pippin) e Meriadoc Brandebuque (Merry) – Hobbits companheiros constates de Frodo; Aragorn – homem, outro herói da trilogia, herdeiro legítimo em condições de assumir o trono de Gondor - cujo governo está nas mãos do regente Denethor. É um dos líderes da comitiva do anel e como tal levará seu grupo às batalhas para proteger a Terra-média e garantir a Frodo tempo suficiente para cumprir sua missão; Gandalf – mago de grande poder e sabedoria, mentor da aventura de Bilbo e também da missão de Frodo. Líder máximo da comitiva do anel; Boromir – filho mais velho do regente de Gondor, homem de grande bravura, mas sofre a influência maléfica do Um Anel; Legolas – elfo dos povos do norte, excelente arqueiro que usa suas habilidades contra os orcs e outros inimigos de Gondor; Gimli – anão, forte e valente, usa o seu machado com grande perícia nas batalhas contra os orcs;  Sam Gamgi – cujo trabalho como horticultor é um dos mais importantes e respeitados no Condado, é o Hobbit mais fiel de Frodo e cujo empenho será essencial ao cumprimento da missão do mestre – cá entre nós, é o meu personagem favorito.
Nobel Smith nos mostra a importância dos Hobbits, esses personagens tão simplórios, na saga. Sobretudo no capítulo 9 – A Coragem de um Pequeno.
“No prólogo de O Senhor dos Anéis, Tolkien nos informa que os Hobbits não são pessoas belicosas. O Povo do Condado partiu para a batalha poucas vezes em toda a sua história (e isso aconteceu há muito tempo); e eles nunca travaram guerra uns contra os outros. Todas as armas que eles usaram nos velhos tempos estão enferrujadas, penduradas sobre as lareiras ou juntando poeira no museu do Condado.
Como o Condado produziu tantos guerreiros valentes, alguns dos maiores heróis de A Guerra do Anel, com uma atmosfera tão tranquila e afetuosa? Talvez seja porque os Hobbits estavam lutando por algo bem diferente de glória ou derramamento de sangue: eles estavam lutando por amor aos amigos.
‘Há uma semente de coragem’, Tolkien escreveu, ‘escondida (profundamente, é verdade) no coração do Hobbit mais gordo ou mais tímido, esperando algum perigo urgente para fazê-la crescer’.”
Podemos viajar nas análises que Smith faz e mesmo aqueles leitores que procuram apenas romance e cenas picantes em seus livros, não deixam de ter alguma elucidação quando à obra de Tolkien.
Foi com grande surpresa e alegria de tomei conhecimento desta obra, claro como fã de Tolkien, como professora que tem loucura por mitologia e história em geral e como leitora de textos de qualidade. E é assim que resolvi abrir 2013 com a Sexta Envenenada homenageando e sendo homenageada com uma “ode” a uma das obras mais influentes dos séculos XX, (literariamente) e XXI (cinematograficamente), e pelo visto ainda há de sobreviver ao seu criador por muito mais tempo.
Essas criaturas, os Hobbits, são a personificação da impressão que mencionei no início da coluna: de otimismo, coragem, festividade, alegria, saúde, empenho, lealdade, amor e amizade, que é tudo o que desejo a todos durante todos os dias de 2013.
“Todos os caminhos levam à estrada e a sabedoria vai guiá-lo até lá, e de volta ao Condado, um país que existe dentro dos nossos corações, uma verdade que é revelada ao mundo através de nossas ações honrosas.”
Fico por aqui, aguardando ansiosamente a próxima semana.
Beijos e Carpe Diem.
Tania Lima

6 comentários:

  1. Ainda preciso assistir o filme!
    Mas deve ser simplesmente perfeito!
    Show de bola o post
    Beijinhos
    Rizia - Livroterapias
    http://livroterapias.blogspot.com.br/

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  2. Boa tarde, Rizia!
    Que bom que te agradou. O livro é uma delícia. A leitura é suave e simples.
    Recomendo para todos!
    Obrigada por sua presença e comentário!
    Beijos
    Tania

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  3. Eu tive o prazer de assistir e reassistir ao filme e lendo o post conheçi outro lado que não procurei atentar e que faz toda diferença na junção do quebra-cabeça livro, filme e a realidade do criador dessa obra Tolkien.

    Parabéns pelo post Tânia, ganhou mais uma seguidora!!

    Beijãoo

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    Respostas
    1. Léia, sua linda!!!!!!!!!
      Que bom ver você por aqui!
      A obra de Tolkien é uma mitologia e tanto e tem tudo a ver com vida, aprendizagem, amizade...
      Ele é fantástico e temos sorte porque os filmes respeitaram muito da obra!
      Beijão, querida e seja bem-vinda!

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  4. Minha linda, vi os filmes, adorei, mas ainda não li os livros, espero ter tempo para lê-los. A vida dos Hobbits, mitologia ou não, é a que gostaria de ter. Como não posso tê-la, vale a pena sonhar.
    Sua coluna está fantástica. Mais um para a minha lista.
    Beijos, minha amada amiga.

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    Respostas
    1. Professora amada,
      a cada dia, a cada livro vou me admirando com alguns autores por sua habilidade em criar um mundo que gostaríamos de habitar. Sejam histórias contemporâneas, sejam de tempos passados ou futuros. Tolkien misturou tudo o que tinha e tudo o que idealizava e conseguiu criar algo mágico e desejável, ainda que tenham seus personagens lutado para garantir.
      Talvez seja isso que falte nas pessoas: lutar pelo que amam se é que amam.
      Obrigada, minha eterna professora, posts como este são escritos com pensamento em pessoas como você, que me abriram janelas através do quadro-negro, dos livros, das conversas em sala de aula. Dedico o que escrevo a cada um dos meus professores e a cada um dos meus amigos e familiares, pois são pessoas que eu embarcaria num navio e levaria comigo para o meu Condado!
      Beijos!

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